A camiseta rosa

Os homens se casam e se despedem de sua vida de solteiro. E, se acreditarmos na tradição, as mulheres não sofrem das dores de despedida de uma vida que, ao contrário, deixariam prá trás com alegria. Elas comemoram com um chá de panelas o reluzente futuro que terão, simbolizado pela cozinha, espaço privilegiado do seu reino e sala do trono da rainha do lar.

O tom nostálgico da despedida que embala a decisão do homem de se casar não faz parte do costume casamenteiro do chá de panela (que importamos dos Estados Unidos, o “kitchen shower”). Esta reunião só de mulheres atesta a felicidade da noiva entrando na sua “verdadeira” vida e realizando sua vocação: casamento, filhos, família.

Despedida de solteiro exala álcool, farra, luto e melancolia pelo que se perde, e anuncia o crepúsculo de uma vida que se vai. Chá de cozinha emana o cheiro da brisa do alvorecer do novo dia, do futuro que chega trazendo a euforia de um sonho realizado.  O noivo, “coitado”, se entrega a um grande sacrifício. Mas a noiva é toda ansiedade: não vê a hora de manusear a artilharia culinária com a qual dominará sua nova vida e comandará sua infantaria doméstica.

Pensava eu nessas coisas quando esbarrei numa cena inusitada. Andando na rua vi umas mulheres dançando, gritando, cantando com copos e garrafas nas mãos, numa verdadeira folia carnavalesca. Inibição zero – nelas e em mim, bisbilhotando a vida alheia. Essa farra feminina num espaço público de uma tarde de abril nada tinha a ver com as licenças concedidas pelo período momesco. Continuar lendo A camiseta rosa

Mercado de casamento opera em baixa

– “E o post novo?”, perguntou a Julia.

– “Pois é”, respondi. “Será que tem alguém nesses dias querendo ler alguma coisa sobre o amor? E a minha concentração, que anda tão perdida por aí?”.

– “Então…escreve sobre isso”

– “Vixe… não!”

Nas últimas semanas minha cabeça vagava em busca do próximo post, mergulhada nas análises, debates e fatos que passaram a invadir nosso cotidiano. Não bastasse isso entravam em cena os preparativos finais para meu novo projeto, com uma intensa troca de e-mails, mensagens, telefonemas, num vai-e-vem diário de conversas, perguntas e decisões inadiáveis. Escalar o Himalaia devia ser mais fácil do que manter concentração e disciplina.

Em meio a esses pensamentos topei com um e-mail da Lulu. Oops, quem é essa? “Olá Marcia, nós temos algumas notícias empolgantes para compartilhar. O Lulu tem um novo propósito e agora é 100% dedicado a te ajudar a encontrar o Sr. Perfeito ou a Sra. Maravilhosa …Com amor, Lulu”. Continuar lendo Mercado de casamento opera em baixa

Réquiem* para o patriarca

– “Onde começa o cavalheirismo e termina o machismo?”, pergunta Bruno.

– “O que você acha?, eu digo.

– “Ontem eu tava numa roda conversando com um cara e várias mulheres – todas financeiramente independentes. Para elas o cara tem que pagar a conta do jantar – é uma ‘cortesia’ nunca deixá-las dividir”.

Bruno diz que, embora possa contar nos dedos as vezes em que dividiu uma conta, fica incomodado com a imposição de um modelo único, “clássico, que sempre deu merda prás mulheres”. Esses “pré-estabelecidos” não seriam expressão do “machismo”? “Qual sua opinião?” Continuar lendo Réquiem* para o patriarca

Do que os homens falam?

“Respondo os comentários ou escrevo o próximo post?”, perguntei pros meus botões.

Embalada pelas ondas batendo na quilha d’A Encalhada, logo estava navegando na praia dos comentários, que são tão interessantes que é melhor ir conversando com eles do que confiná-los às margens do texto. Estou falando dos comentários ao final dos dois posts – que são como a biruta no aeroporto, indicando a direção do vento e orientando a rota dos aviões.

“Navegar é preciso, viver não é preciso” né? Seria óbvio embarcar com Fernando Pessoa. Ok, o poeta português pode vir junto, assim como a minha (a nossa) infância: “A canoa virou/ lá no fundo do mar/ Foi por causa de Maria/ Que não soube remar”. Eita Maria que não tem jeito. Expulsa todo mundo do paraíso, vira a canoa e por querer casar fica lá encalhada esperando alguém tirá-la do fundo do mar.

   A Maria aqui tava encalhada na questão com a qual terminou o post anterior, encafifada com a história do tal ser condenado à solidão e que por medo inventou o amor. Nessa versão, que funde o dois em um como as duas metades de uma laranja, ninguém nunca está só. E mais uma vez lembrou da frase repetida sempre que a ocasião o exige:

– “Conhece aquela frase do Woody Allen citando o Groucho Marx?”, pergunto prá meu interlocutor quando converso sobre o amor.

– “Não, e qual é?”

– “Querida, de hoje em diante nós dois vamos ser um só…E esse um só sou eu”.

Eu disse “condenado à solidão” né? Pois é, nascemos e morremos sozinhos e não há cristo que mude isso.

E você sabia que há quem ache um grande barato a solidão e dela não abra mão em hipótese alguma? Como aquele aristocrata poderoso que gostava tanto de ficar sozinho que não deixava nem o médico dele chegar perto. O pobre do doutor tinha que fazer o diagnóstico do lado de fora do quarto. Pois bem, esse maníaco pela solidão construiu na casa dele um salão de baile prá dois mil convidados e, claro, nunca usou o salão.

Essa história de amor – e solidão – vai longe. Bem mais longe do que pode um único post. Como escrevi ao apresentar o blog aqui ao lado (“Sobre o blog”), esse é um dos temas que quero ir desenrolando. Passo a passo, post a post.

Intrigada – mas não surpresa – com a constatação de que a maioria dos comentários aqui tenha vindo das mulheres, fiquei pensando se eu não havia tocado os homens com meus posts. Nada disso, pensei, pois há comentários de homens sim, e muito bons. Continuar lendo Do que os homens falam?

A encalhada

– “Faz um blog”.

– “Por que você tá me falando isso?”

– “Porque você tem que ter um blog – as pessoas querem ler o que você escreve, vão poder comentar, conversar com você”.

– “Mas e o facebook? A gente pode fazer isso no facebook”.

– “Não, é diferente, você vai ver”.

Durante esses últimos anos esse papo se repetiu com pessoas diferentes sem que eu me animasse a tomar essa iniciativa. Mas acordei decidida: vou ter um blog. Pronto, está resolvido. Afinal, não é isso que eu faço todo o tempo? Uma ida ao supermercado – e vou mais de uma vez por semana – mesmo que seja para comprar uns poucos itens, me toma uma hora porque fico lá ouvindo um ou outro funcionário me contar do iphone roubado no ônibus quando voltava para casa ou da sua dúvida se compra outro ou se guarda o dinheiro para fazer um negócio com uma casa lá no bairro.

No aeroporto é a mesma coisa. Viajando há anos duas vezes por semana pelos mesmos 3 aeroportos, é impensável chegar na “casa” deles e não cumprimentar, saber como estão, ouvir seus problemas, suas dúvidas, alegrias e celebrações. Sou uma matraca, uma tagarela, seja na minha dentista, médico ou academia – onde, não raro o William, meu professor, tem que desligar o botão da falação e me lembrar que estou ali para treinar. Mas na verdade eu sou é curiosa; gosto de escutar, de observar as pessoas, saber como elas estão vivendo suas vidas – com ou sem problemas, com ou sem amores, dores ou até predadores psíquicos, que é aquele tipo de pessoa que tira nosso sangue ou seiva sem que a gente sequer se dê conta. Na época em que eu fazia a faculdade (de Psicologia) ia à praia e ficava ali escutando as conversas dos vizinhos da areia – hábito que mantenho até hoje, mas a legião dos ambulantes gritando dificulta bastante minha tarefa. Continuar lendo A encalhada

Algumas palavras sobre como isso começou – e prá onde quero ir.

Déspotas mirins: o poder nas novas famílias é o nome do meu último livro publicado. Ele trata das relações entre os adultos e as crianças e causou um bom barulho – “do bem”. Até hoje continuo falando desse livro em entrevistas, palestras e artigos. Mas desloquei o foco dos déspotas mirins – isto é, das crianças – e passei a estudar as relações entre os adultos, incluindo as novas famílias.

Minha pesquisa de pós-doutorado era exatamente o livro só que com outro nome: Édipo Tirano: o feminino e o poder nas novas famílias. Há algumas décadas venho tentando entender essa história do feminino na nossa cultura. E, apesar das aparências afirmarem o contrário, homens e mulheres habitam o mesmo planeta. Se quero entender o que é o feminino tenho que estudar também o que é a virilidade ou simplesmente o que são mulheres e homens. Como são suas relações na família? No namoro ou na vida solteira? Ficam? Paqueram? Pegam? E a reclamação repetida sobre a escassez de vínculos mais sólidos: “homens querem sexo, mulheres querem paixão, romance, amor?”. E o alardeado “amor líquido”, amor digital facilmente deletável que caracterizaria esses nossos tempos? Continuar lendo Algumas palavras sobre como isso começou – e prá onde quero ir.