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“Cada dia pienso en ti”

Em 12 de agosto de 2012:

19:13: vamos namorar? Que tal? Se esperarmos mto mais tempo iremos parecer os personagens do amor no tempo do cólera kkk… viveremos num barco, rio abaixo, rio acima (clique aqui para assistir).

19:15: adorei esse livro. Não sabia desse filme dirigido por Mike Newell. O produtor Scott Steindorff levou 3 anos tentando convencer Garcia Márquez a liberar os direitos do filme e sabe o que ele dizia? Que ele era o próprio Florentino e que nunca desistiria. Com a determinação de uma pedra, como Florentino, ele acabou conseguindo e foi o próprio Garcia Márquez quem convidou a Shakira prá fazer a trilha sonora. Nessa amostra que te mandei dá prá ver a Fernanda Montenegro no papel da Trânsito Ariza, mãe do Florentino que, como você sabe, amou Fermina por toda a vida e, como você, saiu pelo mundo inscrevendo o nome deles nos bancos das praças e em tantos lugares pelos quais andou.

19:17: mas voltando ao que você disse, ooo coisa boa navegar rio abaixo, rio acima com você. MP/Florentino Ariza e M/Fermina Daza no Nueva Fidelidad – toda a vida…

19:18: MP, como é que você, já naquela idade, conseguia, com tanta naturalidade, avançar numa fronteira tão perigosa como a mãe do Florentino apontou: “Os fracos não entram jamais no reino do amor”? Achei isso incrível no livro, porque era assim que eu via você; admirava sua coragem em franquear essa fronteira, seu destemor penetrando no terreno movediço da paixão que me dava tanto medo. Gabo cutuca a ferida – a minha né? – de novo, fazendo a tia Escolástica mandar Fermina responder sim pro Florentino explicando: “Ainda que você esteja morrendo de medo, ainda que depois se arrependa, porque seja como for você se arrependerá a vida inteira se disser a ele que não”. Foi o que te falei que,

19:21: meses atrás, relendo suas cartas, fiquei pensando nas escolhas que fiz na vida. “Cada dia pienso en ti, pienso un poco más en ti…y sigo piensando em tí” – Florentino nunca deixou de pensar na Fermina desde que eles se viram pela primeira vez; o olhar dela “foi a origem de um cataclismo de amor que meio século depois não tinha terminado ainda”… Garcia Márquez disse que esse livro dele é um livro humano, um livro que desperta o desejo de viver um grande e inesquecível amor, que faz pensar na velhice e no peso das decisões que tomamos.

19:25: taí o Fernando Pessoa que você comentou no seu almoço em família – “navegar é preciso, viver não é preciso”: não mesmo, é “errático”, prá usar o lindíssimo termo que você fez sair das entranhas da metáfora do poeta.

19:29: daí o susto do comandante do Nueva Fidelidad quando suspeitou que, mais do que a morte, é a vida que não tem limites. Então ele perguntou pro Florentino, agora um velho como Fermina, até quando ele acreditava que eles poderiam “continuar neste ir e vir do caralho?”. O Florentino, que já “tinha a resposta preparada havia cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites” respondeu simplesmente:
“- Toda a vida”.

19:31: se você tá pensando em igualar o tempo do Florentino eu vou ter que fazer nosso primeiro encontro recuar mais ainda no tempo e vou jogar lá pros meus 8 anos. Entra logo nesse barco e vamos navegar por aí, errando por essa vida já liberta do cólera, mas ainda tão presa da cólera dos homens. Antes de eu te perder.

19:31: Vc me achou, e só vai me perder outra vez se quiser. Eu não corro este risco pq vc já é parte de mim. Acho q vc nunca deixou de ser minha namorada nos meus sentimentos… e não responde quando é pedida em namoro ahaha.

19:32: Vc tá me pedindo em namoro? Em menos de uma semana você me pediu em namoro pela segunda vez na minha vida, depois em casamento – ops, essa foi nova -, programou nossa lua de mel, falou da sua paixão de 45 anos, tantos meses e tantos dias e, mais uma vez, tá partindo numa viagem sem data prá voltar.

19:45: o que me faz pensar que a Myrna tem alguma razão: “não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo”. Depois me lembra de te falar da Princesa de Clèves, personagem do romance da Madame de La Fayette, e também do filósofo francês Pascal Bruckner que escreveu Fracassou o casamento por amor? Agora olha essa da Jane Fonda. Uma jornalista perguntou sobre o futuro marido e ela respondeu: “Está louca? Aos 77? Por que iria me casar?” E aí – por isso que eu tô te falando dela – veio a pergunta sobre o que ela estava buscando na relação atual: “Carinho. Ninguém ensinou isso quando éramos jovens. Buscamos o glamour, o sexo, o poder, mas ninguém nos diz que talvez os mais quietinhos a longo prazo são os melhores” – como o namorado dela de 72 anos, que é “amável e carinhoso”.

19:51: por falar nisso, um beijãozão e me aguarrrrrde que eu volto. Quer?

Publicado por

Marcia Neder

Marcia Neder é psicanalista com Pós-doutorado em Psicologia Clínica pela PUC-SP, pesquisadora e autora de vários artigos e livros. Seus últimos livros publicados são: "Os filhos da Mãe" lançado em maio pela Editora Leya/Casa da Palavra e "Déspotas mirins: o poder nas novas famílias" (Editora Zagodoni).

11 comentários em ““Cada dia pienso en ti””

  1. Pois é, minha querida, parece que tem muita gente pensando nas complicações entranhadas no amor… Mas eu tenho, hoje, uma visão diferente, baseada nas complicações que já vivenciei : o amor ficou simples, a partir do momento em que parei de ter expectativas de simplificá-lo e fiquei em paz com a realidade da guerra que ele me impõe. Vive l’ amour!

  2. Marcia, o amor sem expectativa é o melhor, embora difícil de vivê- lo. Queria saber amar assim, mas a minha ansiedade me denuncia, me aprisiona. Desistir do amor? Nem pensar! Não agirei como Francesca, ” As Pontes de Madison”, destravarei a maçaneta da caminhonete e correi para o cadillac de Robert. Tentarei pelo menos! Por que não fiz..?. não faz parte do meu vocabulário, tenho sempre, à mão uma caixa de Primeiros Socorros!!!

  3. Marcia, explicando o posto acima, pois ficou estranha minha colocação:” não tentar” . Depois de quase 19 anos de viuvez, encontrei um ” azeite” , expressão da minha tia Maria Arminda, explico depois. Pois bem, fiquei entusiasmada, entrei para ser sem expetativa, destravei a maçaneta da camionete, entrei no cadillac e quebrei a cara, pior que eu sabia que era roubada. Tentei… mas.,.,
    Beijos.

  4. Se Gabo estivesse em nossos dias escreveria “A cólera em tempos eleitorais” e no lugar do amor, despontariam antagonismos como a individualidade, o pertencimento e o espaço público, radicalismos, micropolíticas, solidariedade e nilismo.
    Gabo faz falta estando e não estando aqui. Mas prefiro o amor aos temas atuais.

    1. Se Gabo estivesse em nossos dias escreveria “A cólera em tempos eleitorais” e no lugar do amor, despontariam antagonismos como a individualidade, o pertencimento e o espaço público, radicalismos, micropolíticas, solidariedade e niilismo.
      Gabo faz falta estando e não estando aqui. Mas prefiro o amor aos temas atuais.

      1. Silvia, boas questões. A cólera em tempos eleitorais… Será só em tempos eleitorais? O homem é um ser do ódio, tanto quanto do amor. Você diria que o ódio que exala e se espalha nesse “ativismo” de mulheres muito à la american way of life estaria restrito aos tempos eleitorais? Quanto aos antagonismos citados por você – muito interessantes também, especialmente individualidade e pertencimento – não são produtos eleitorais também. A modernidade ocidental (a partir do século XVIII), desloca o centro do mundo de Deus para o homem – para o bem e para o mal. A partir daí ganhamos muito em liberdades individuais em relação ao grupo social em que nascemos (nobreza, casta, seja lá o que fosse) e é nesse contexto que a psicanálise surge: na oposição que, segundo Freud, haveria, entre o indivíduo e seus desejos (pulsões) e a cultura/civilização. A meu ver – não estou sozinha nisso, mas era uma briga antiga com a psicanálise – essa relação excludente mudou e hoje a cultura teria um papel diferente do que Freud via – que era o de reprimir as pulsões. A questão é complexa mas é por aí que a banda toca…

    1. É Eneida, não depende mesmo só de um lado… Me diga uma coisa: como você acha que anda “o outro lado” no contexto atual das nossas vidas? Ando querendo muito pensar e escrever sobre isso. O que me diz? Me explica melhor?

      1. O outro lado pode ser o próprio, a própria, eu mesma e não necessariamente quem está do lado de lá, quem almejamos. Todo estímulo provoca uma reação. …e os tempos psicológicos dos indivíduos costumam ser diferentes, daí a adequação ou inadequação. Foi o que quis dizer acima….nada simples, tudo muito complexo…bagagens cujo conteúdo emocional nem sempre assimilado com facilidade. O que é o “Amor nos tempos do cólera “? Uma série de desencontros, de desacertos que o Amor mais profundo não dá conta por vezes…vivências, experiências, também podem acumular certo grau de intolerância.

        1. O outro lado pode ser o próprio, a própria, eu mesma e não necessariamente quem está do lado de lá, quem almejamos. Todo estímulo provoca uma reação. …e os tempos psicológicos dos indivíduos costumam ser diferentes, daí a adequação ou inadequação. Foi o que quis dizer acima….nada simples, tudo muito complexo…bagagens cujo conteúdo emocional nem sempre assimilado com facilidade. O que é o “Amor nos tempos do cólera “? Uma série de desencontros, de desacertos que o Amor mais profundo não dá conta por vezes…vivências, experiências, também podem acumular certo grau de intolerância.

        2. Pois é, entendi isso. É que te respondi só agora meio que contaminada por essa temática que dominou o mercado midiático da semana… E acho que essa guerra interessa bbem mais aos negócios do que às relações amorosas… Meu último post avança um pouco nesse terreno (e vou mais fundo no artigo que acabei de publicar).

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